Confira entrevista exclusiva com Mônica Benício, viúva de Marielle Franco

Nascida e criada na favela da Maré, no Rio de Janeiro, Mônica Benício tem 33 anos, é ativista de direitos humanos, feminista, lésbica e militante LGBT+. Arquiteta urbanista formada pela PUC-Rio, também é mestra em Arquitetura na área de “Violência e Direito a Cidade”. Desde a execução de sua companheira de vida, Marielle Franco e do motorista dela Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, Mônica tem se dedicado à luta por justiça para aquele crime bárbaro, que se tornou referência internacional em direitos humanos.
Mônica está em Maceió, onde, nesta sexta-feira (6), a partir das 18h30, no Hotel Ritz Lagoa da Anta,  recebe o Prêmio Alagoas de Direitos Humanos, promovido pela Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), cuja assessoria foi fundamental para a entrevista a seguir.

Blog – Há uma grande campanha contra os direitos humanos atualmente no Brasil. Como você avalia esse combate aos DHs?

Mônica – O combate aos direitos humanos vem se fortalecendo porque o próprio conceito de direitos humanos é diariamente distorcido e estigmatizado em nossa sociedade, inclusive pela própria imprensa. Se falta comida, moradia, saúde e tantas outras necessidades básicas, que garantem a dignidade humana, faltam direitos humanos. Hoje, é um desafio para a esquerda aproximar do entendimento do povo esse assunto que é, de fato, do interesse de todas e todos. É fundamental dialogarmos com clareza e empatia. Fazendo plena leitura desse quadro, a extrema direita alcançou o poder reforçando o preconceito sobre o assunto e reduzindo direitos humanos à questão da contenção da criminalidade. Assim, o enfraquecimento da pauta foi central dentro desse projeto de poder, para que, a partir do medo e da insegurança já instaurados, o caminho ficasse assustadoramente livre para um presidente se eleger com uma agenda abertamente bélica, pautada no ódio e assumidamente contra o povo e sua diversidade.

Blog – Marielle Franco era militante pelos direitos da mulher, jovens negros e da periferia… Mas, ainda hoje, há fakes news de que ela “defendia bandido”. O que imagina que ela diria hoje sobre isso?

Mônica – Marielle foi defensora de direitos humanos desde o final da sua adolescência. Como defensora de direitos humanos, ela compreendia, o que eu também compreendo, que nenhuma vida vale mais do que a outra. É inquestionável que o seu assassinato foi um crime político, uma grave violação de direitos humanos. Mas o Brasil é um país que quer criminalizar a imagem dos defensores e defensoras com o discurso falacioso de que somos defensores e defensoras de bandidos.  A quem interessa isso? As fake news contra a Marielle vieram na tentativa de justificar o crime bárbaro cometido contra ela, seja por não ser muito fácil justificar o injustificável, como para não assumir que nossa democracia estará em risco enquanto o Estado brasileiro não responder quem mandou matá-la. E o fazem de maneira grotesca, apelando para o desconhecimento de boa parte da população sobre o que, de fato, são direitos humanos. Não posso, nem eu nem ninguém, ousar imaginar o que Marielle diria, essa não é minha função ou meu desejo. Mas Marielle era uma pessoa adepta ao diálogo e, como todos defensores dessa ideia, talvez quisesse explicar o que são os direitos humanos, na mais profunda acepção do termo. Que é o direito à vida, à comunicação, à água, a terra, à livre expressão, e é nossa luta é por uma sociedade mais justa e igualitária para todas e todos.

Blog – Apesar da campanha contra os direitos humanos, Alagoas promove um prêmio que reconhece a contribuição nesse segmento. Você representa Marielle e será homenageada pelo estado. Qual a importância desse tipo de iniciativa para o debate?

Mônica – É fundamental que existam iniciativas como essa, que permitem que a gente amplie o diálogo para além das nossas rodas e possamos fazer com que avancemos no debate. Eu deixei de ir a uma agenda na Europa para vir aqui hoje, pois Alagoas é um dos lugares mais avançados nas pautas de direitos humanos no Brasil.

Blog – Qual a sua visão sobre políticas públicas de combate à violência contra a mulher? Continua sendo tarefa difícil ser mulher no Brasil?

Mônica – No Brasil e no mundo, todas nós, mulheres, somos vítimas de uma sociedade patriarcal capitalista extremamente violenta, que nos relega a condições inferiores. Os números são gritantes. Em nosso país são registradas violências contra mulheres todos os minutos. É como se estivéssemos na vida para servirmos aos homens, e quando não servimos somos agredidas. Então é necessário avançar muito ainda no que diz respeito a políticas públicas para mulheres, a começar por instituições que acreditem naquilo que nós falamos.

Blog – Pode relatar a sua caminhada em busca de justiça no caso Marielle. Quais entidades, pessoas, países, regiões que você visitou e onde obteve apoio?

Mônica – Ao longo de mais de 600 dias da execução de Marielle, visitei mais de 20 cidades em todos os continentes do mundo e recebi uma enorme solidariedade, sou muito grata por isso. Tenho certeza de que esse apoio internacional está sendo fundamental para me manter firme na luta e para chegarmos à elucidação desse crime, que é uma resposta que todos nós familiares e rede de afeto de Marielle e Anderson queremos.

Imagem: divulgação

 

2 Comentários
  1. Oi

  2. Fiquei surpresa ao saber que Alagoas apoia os direitos humanos.
    Bela matéria, parabéns!

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